A mesma impressão que tinha aos 6 anos de idade, de que o outro é um personagem facilmente identificável, e não importa o que ele faz ou pensa, desde que colabore ou me consiga um sorvete.
"Cala a boca, mulher! Mede a merda da barra da calça e me deixa sair logo desse muquifo."
"Pouco importa que você fazia esse colete horroroso quando tinha mais tempo, ou que a outra cliente está te enrolado, ou que não gosta da moda da calça fusô."
Ai, porque ainda estou prestando atenção no que ela diz? Só preciso respirar (esse ar fétido), esperar ela terminar de marcar as roupas e sair. Em uma semana eu volto, pago e pego minhas roupas.
Mais alguns minutos... "Ai, aqui cheira merda." – Repudiar mentalmente é fácil, faço o tempo todo. Mas no ato, só sorrisos, agradecimentos, “estou tranquila, aguardo sim”... Por quê? Boa pergunta.
Aos 6 anos, os personagens eram bem menos complicados. Eram a somatória das ações que realizaram ou algo que me chamou a atenção quando fizeram ao meu redor. A maioria das vezes podia ser dito ou feito algo que eu nem tinha ciência.
Se tava dando banho na barbie, meu universo era a barbie e seu banheiro.
O tio, por exemplo, era um monstro porque batia no filho, gritava, me culpava de algo que só um adulto pode ter culpa (afinal,criança não tem culpa se lhe dão responsabilidades de um adulto... Mas esse também era o tio que tinha um colo bom, fazia brincadeiras, era engraçado. Simples assim, sem questionamentos. Sem contradição entre ser um monstro e um bom colo.
Mas, obviamente a gente cresce e tende a ficar mais e mais crítico, identificar e julgar melhor, ter relações mais complexas, sentindo menos, raciocinando mais.
A costureira, pobre mulher, absolutamente mal vestida, no entanto crendo ser uma ótima crítica da moda, com sua televisão bradando sermão evangélico, em meio ao caos de seu brechó mal organizado e fedendo a fezes. Diz que estourou um cano do andar de cima. Uma pena, o cano era de esgoto. Ela falava, falava, e eu, preocupada comigo, assim como quando tinha 6 anos.
O tio, só por curiosidade: não vale uma paçoca mesmo. Na época eu não percebia, mas tinha dados já pra concluir o que hoje, sabendo muito mais e compreendendo melhor, sei: inseguro e covarde o suficiente pra bater e gritar com criança, é a forma que lhe permite identificar-se como homem e capaz. Enfim, alguém de quem não sentirei saudade ou falta de convivência.
É estranho quando a gente assume que tem gente que você prefere nunca mais ver na vida. Não que tipo “não faz diferença”, mas que faça diferença, pra melhor, se a pessoa sumir da sua frente. Vem quase junto com assumir que você sente ódio, tem pena, se sente impotente e que dá preguiça se relacionar com algumas pessoas.
É muito bom acreditar que os relacionamentos tem que ser cultivados, boas pessoas tem educação e educação é se dedicar ao outro. Acaba quando o outro te faz sofrer e ser infeliz. Ou melhor, acaba quando você percebe que sem o outro é mais feliz, sofre menos.
Não estou falando de um outro como qualquer outro. Não. Adoro muitas pessoas. Gosto da maioria com quem me relaciono. É da minoria que busco distância. Mas, ainda assim, há de se admitir que quando se aprende que temos o direito de definir nosso espaço nas relações, acabamos dando um pouco mais de distância para quase todas elas. Percebemos melhor a que distância estamos de cada um, tendo também o poder de sentir de quem devemos nos aproximar mais.
Da costureira e do tio, o máximo de distância possível! Quem teve a infância Disney, como eu, aprendeu com o menino lobo uma importante lição: “O necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”.
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