...porque o chuveiro quebrou no inverno, e o que resta é estar sob o luar, sob o sereno, no meio da noite, no estacionamento da Leroy Merlin!
Eu tava quase tomando banho de canequinha, mas um príncipe de voz doce veio galopando em seu cavalo branco da Lorenzetti e me acalmou. (Mais uma estrela dourada de Condecoração ao namorado) Qualquer desordem no conforto parece desculpa pra malcriação nata. Quase chorei. Juro! (Que mimada!) Pois é, dizem que a realidade é um balde de água fria. Estou fugindo dela por enquanto!
Não tem vontade de trocar a roupa, arrumar a cama, escovar os dentes e deitar. O cansaço é enorme, a noção de que é tarde existe, mas falta coragem pra sair da frente da tela e assumir que a vida tem que continuar. Há uma enorme consciência de tudo que é preciso fazer, de muitas pendências, do quanto é importante descansar pra estar inteiro pro dia seguinte. Nada disso é suficiente pra dar segurança ao corpo e fazê-lo levantar. As pernas inquietas, ombros doloridos, pescoço curvado e olhos ardendo. Cobranças, pendências, planos, desejos e reflexões passam pela cabeça como aviões que se cruzam, com rapidez e um barulho estrondoso: artigo, paciente, viagem, mãe, garganta inflamada, frio, mestrado, emprego, estágio, Amazônia. Madrugada adentro os pensamentos e o corpo moldados nessa prática constante, confusão e cansaço, e ele continua sentado na frente do computador.
Antes que o céu sinta sua falta, corre pra cá menina Logo que chegar, a terra celebrará em festa Inicialmente te acharão um milagre Com o tempo farão que acredite nos homens e suas mentiras Enfim entenderão que és livre pra pertencer verdadeiramente ao céu somente.
Chovia, os vidros do ônibus fechados, lotadaço, meu celular sem bateria e nem dava pra ouvir música, trânsito parado, restava ainda uma hora de viagem. Um certo casal se aproxima conversando com voz de nenem, dividindo um suco de caixinha e um club social. A mulher senta ao meu lado e o homem fica em pé no corredor, encostado nela. Quando ela terminou de sugar ruidosamento o suco de caixinha e amassou o papel do clube social, começaram a se beijar longamente, com selvageria e estalinhos carinhosos. Eu ouvia, via, sentia e era capaz de imaginar o gosto, tal meu envolvimento sentimental... de ódio.
Sentada, com as mãos voltadas pra cima, olhos fechados. Outro alguém passando as mãos no ar, em movimentos que contornam meu corpo. Silêncio ou palavras ditas sussurradas. Por vezes a impressão de que é possível sentir o calor da mão que se aproxima da pele sem tocá-la. Os movimentos ao redor da cabeça geram sons do vento que as mãos fazem, dos dedos estalando e as vezes das respirações. Surgem fantasias sobre quem sou, que contorno tem minha existência, que ambiente me faz presente, que espaço e tempo são aqueles. Em alguns momentos imagino por onde passa a mão que transita ao redor de mim. Então as mãos desse outro me tocam e perde-se a leveza, perde-se a tensão sutil entre as peles e retomo o peso do despertar.
Isso aconteceu comigo algumas vezes, ao tomar "o passe" de centros espíritas. No concreto, uma experiência de toque. O toque sem toque, a troca, a aproximação dos corpos em um ritual coreografado e subjetivamente acordado.
Fiquei pensando, seguindo essa lógica da mensagem corporal, se me fizessem um descarrego cinematográfico, que nem por vezes vi na tv quando mudava de canal, que o pastor segura pela nuca, grita e sacode você todo, eu ía virar uma bifa.
Se você já passou por um descarrego, dê seu depoimento!
Teve ano pra tudo quanto foi simpatia. No total, incluiu livro de capa preta e uma vó portuguesa, pratos e pires pingados de cera de vela, velas das mais variadas cores, ovos, sacos plásticos, maçãs enterradas, um metro de fita azul, contar estrelas no céu, pétalas de rosa, penas de passarinho...sem contar a imagem do santo. Ele passou longas temporadas hibernando no congelador, ou pendurado pelo pé, ou com um saco na cabeça... O coitado tava mais pra refém de bandido do que pra imagem religiosa.
Tendo o santo ficado abrigado com as barbies numa caixa de papelão, decidi que precisava agir de forma mais realista. Se eu queria casamento, que eu o fizesse acontecer. O que o Santo tinha a ver com meu noivado recordista?
Quando meu noivo entrou lá em casa pedi pra mamãe mandar ele vir pro quarto "porque eu tava arrumando uns livros". Ao passar da porta do quarto, lacei ele pelos pés com uma corda bem grossa, puxei, com muito esforço, através de um gancho em que estava passada, no teto. Ele só parou de se debater quando já estava completamente na vertical, com os braços pendurados pra baixo da cabeça. Minha mãe veio correndo, em desespero pela gritaria. Eu, amarrando a corda na cama para estabilizar a situação, expliquei diante da triunfante e bem planejada estratégia: Vai ficar pendurado de ponta cabeça até me arrumar casamento. Vamos ver se assim não dá certo!
Minha colega de cela disse: "Quer saber uma que dá certo meeeeeeeesmo, anota essa: À meia-noite do dia 12 de junho, quebre um ovo dentro de um copo com água e o coloque no sereno. No dia seguinte, interprete o desenho que se formou. Se aparecer algo semelhante a um vestido de noiva, véu ou grinalda, o casamento está próximo."
Anita já tinha escrito e deletado tantas frases que teve a sensação de estar deletando a mesma frase pela segunda vez. Pensou que provavelmente havia repetido uma idéia: “Duas vezes a mesma má-idéia?”. Cansou. Fechou a página do Word.
Poucas coisas a faziam livrar-se dos pensamentos confusos e angustiantes: apsicoterapia semanal e a escrita. Algumas coisas ajudavam a esquecer, como a leitura, a televisão, o bar e os amigos. Mas, para ter mais clareza e enfrentar seus pensamentos, aprendera esses caminhos e os usava quando sentia necessidade.
Ela entendia que a escrita não deixava de ser uma conversa, na exploração da linguagem e na transmissão das idéias. Para ela, havia sempre diálogo na escrita. O que transmitia tinha direção, intenção de chegar aos pensamentos do leitor. O leitor não tinha cor nem forma, ou propósito para estar lá. Pouco importava o que acharia o leitor no momento em que estava mergulhada em si, transbordando o texto pelos seus dedos. Ele existia somente. Ele tinha que existir para que ela escrevesse. Se não, seria como falar sozinha, meio louco.
O leitor poderia achar maravilhoso, estupendo, ou horroroso, fraco... A escritora tinha medos e dúvidas: “Será que faz sentido pras pessoas? E se o que eu escrevo não for interessante?”. Nos instantes do diálogo, a palavra era dela, e o leitor, cego, surdo, mudo e sem rosto, acenava afirmativamente concordando com tudo. Em outro instante, seu texto estaria estampado na tela do computador ou impresso sobre a escrivaninha de alguém conhecido ou não, interessado ou não, satisfeito ou... E aí havia ansiedade para receber um elogio, uma troca, a resposta de algum leitor, um sinal ao menos de que alguém a lia.
Deu duas voltas pela sala de estar, parou e olhou pra cachorrinha, que roía meticulosamente o pé do sofá. O bichinho, sempre gracioso, olhou-a nos olhos enquanto travava os dentes em uma porção do tecido, desfiando-o, como quem afronta o outro fazendo diante dele algo que sabe que provocará transtorno.
Anita levantou o braço, estendeu o dedo indicador, e, prestes a ordenar o fim da revolução canina contra sua mobília, teve uma idéia. Pegou a cachorra e carregou até o quintal, trancou-a para fora, sem dizer nada, e voltou para o computador.
Olhou a tela. Aproximou as mãos do teclado, apoiando o punho e passando os dedos como se fosse escolher pelo tato. Digitou as primeiras palavras, provando das teclas. Observou a tela, percebendo a mágica dos seus toques transformarem-se em imagem. Então, Anita entregou-se aos movimentos e pensamentos. A sensação de fazê-lo sobressaía-se ao objetivo da ação, como se estivesse a morder algo pela mastigação e não pela intenção de comer. Em pouco tempo, compôs uma página de texto.
Ela nem imagina o quanto ficou perceptível, mas ao clicar em “Salvar”, fez exatamente a mesma cara que a cachorrinha fez ao fitá-la quando roía o sofá.
Assumir as diferenças não é o primeiro passo para a união. No início de um relacionamento perguntam um ao outro quais as preferências, gostos, planos, histórias, e buscam elos seguros de identificação,esperança de compartilhar sentidos. A identificação é um grande fator de atração. O outro como: “aquele que me faz ser alguém que eu gosto de ser”, mesmo que momentaneamente.
“- Quero encontrar a minha alma gêmea”
Quando muitos sentidos são compartilhados, torna-se mais fácil compreenderem-se. Alguns relacionamentos partem de altos índices de compatibilidade em termos de visão de homem e visão de mundo, fazendo com que compartilhem mais. Outros podem adquirir com o tempo esse mesmo índice, após dividirem e trocarem experiências, construindo olhares em comum. Outros terminam na impossibilidade de compartilhar e atingir uma compatibilidade suficiente à união.
Quando em curso, um relacionamento conta com a manutenção de muitos elos, com a criação de outros e o conforto de sentir-se compartilhando um mirante único, um lugar particular, um planeta, de onde juntos perceberão, entenderão e agirão nesse universo. O estreitamento desses elos, até que ambos adquiram uma visão do universo que tenha um ângulo parecido, é o caminho em que se constroem as compatibilidades.
Mas, acredito que há também no relacionamento o momento de assumir as diferenças. Enfim, já não é mais o primeiro passo.
A diferença não é oposta à compatibilidade. Há diferenças perfeitamente compatíveis: queijo e goiabada, feijão e arroz, macho e fêmea. A diferença é aquilo que não é igual e torna mais difícil compreender o outro. É o que algumas vezes tira o conforto da relação e pode levar a briga, tristeza, desânimo... A diferença é a base, aquilo que constitui cada um. Ao mesmo tempo, no relacionamento, ela pode causar estranhamento. O casal alimenta a união até o momento que a diferença os aparta.
Se a diferença deixa de ser aquele mero fato óbvio de diferenciação entre ambos, que antes contribuía ao mútuo interesse, e passa a ser ameaça ao conforto da relação, o que fazer?
Estou aqui em defesa das diferenças. Acho que o relacionamento é bom quando se tem compatibilidades e um belo mirante pra compartilhar, mas acho que ele é ótimo quando se respeitam as diferenças e se aprende a conviver com elas.
O tempo todo estamos falando de um relacionamentos e condições de dentro de um relacionamento. Só para lembrar, não é da hora que cada um está em uma atividade, em lugares diferentes, em momentos diferentes que eu falo. O “dentro do relacionamento” daqui é a convivência real, a divisão concreta do espaço, os momentos em que ambos se ouvem, se percebem, se encaram e se relacionam.
Por exemplo, aceitar a forma como o outro palita os dentes, desde que não seja na sua frente ou que você não tenha notícia, é fingir que não acontece, portanto, não há essa diferença no relacionamento. Permitir que ooutro aja naturalmente e palite os dentes quando desejar, ou conversar e pedir que não palite os dentes na sua frente, porque você não suporta, são formas de respeitar a diferença e manter a compatibilidade.
Um SIM às diferenças, que hão de irritar, fazer chorar, dar em briga, criar casos... mas que hão de aperfeiçoar a relação até o ponto em que haja respeito pelo árduo processo de construção de si, pelo direito de existir e agir com criatividade no mundo.
Dizem que a alma gêmea é o lampejo de sei-lá-o-que que se dividiu em duas porções, duas almas, que separadas e em curso pelo planeta, desconhecem a existência da outra. Mas, com a mágica das probabilidades, ou até com o imã da outra alma, elas se atraem e se reencontram quando ficam próximas. Daí o sonho de encontrar a alma gêmea e ter um relacionamento cheio do prazer de desfrutar imensa compatibilidade.
Mesmo que duas almas viessem de uma, como gêmeos homozigóticos, passariam toda sua existência se diferenciando de outras almas, criando identidade. Enfim, mesmo que haja meeeeeesmo alma gêmea, não inveje, afinal, o processo é o mesmo: eu sou eu e o outro é o outro. O lampejo já foi, bem!
Todo dia o sexo tá em todos os lugares. Não é sobre nenhuma teoria analítica que acha que tudo no fundo é sexo não, tô falando de sexo literalmente. Ele acontece todo dia, com muita gente, e em tudo quanto é lugar, de formas curiosíssimas. Daí, nem tenho que explicar, qualquer sexo-ativo (acabei de inventar) entende que é interessante pensar sobre isso. To concluindo que posso abrir uma sequência de textos sobre sexo. Dá pra fazer um livro (mais um, que que tem?). Enfim, vou começar com a idéia de hoje. Se depois isso virar uma "série sexualmente ativa", conversamos.
Dá pra substituir uma vontade? Eu não sei se qualquer outra coisa faria passar aquela vontade descontrolada de comer chocolate. Ou então de tomar um café depois do almoço. Ou de um doce, de um cigarro, de uma cerveja gelada... Sabe quando não tem sobremesa e é só tomar um café com adoçante que dá uma tapeada? Será que dá pra substituir a vontade de transar? Sublimação: a psicanálise explica. Mas, não é nesse nível de análise que quero tratar. Falo da vontade percebida no cotidiano, posta cara-a-cara com você, o momento exato que você se pega com o corpo pinicando de vontade: esse! Não é assim que acontece as vezes? Você tá fazendo suas coisinhas da vida (aquilo que você tenta fazer parecer uma vida), aí você pára pra saciar uma vontade ( abre o armário com ar de missão-secreta e come o chocolate como um viciado injeta heroína). Enfim, tem a situação também que você pensa: ui, eu queria uma transa. Se você tem parceiro você tem X situações: você está perto dele e em um lugar que rola,você está perto dele mas naquele lugar não rola, você está perto dele e ele rola pro lado e dorme, você não está perto dele e fica pensando numa forma de encontrá-lo e planejando como ter certeza de conseguir aquilo dele. Se você não tem um parceiro, são mais Y situações: a exemplo, você relembra alguém com quem já transou pra ir atrás, você vai atrás da colega de escritório em mais uma tentativa sórdida, você puxa papo com a ex-namorada pelo MSN, você sai na balada, você bebe demais e paga por sexo, enfim, uma situação mais desesperadora que a outra. Na melhor das hipóteses você se lambuza. Na pior delas fica na mão, dá-lhe café com adoçante.