O excesso de desejo me deixou vazia. A falta dele me deixou sobrecarregada.
O medo de vivê-lo me fez infeliz. Vivê-lo me afastou da felicidade.
Não há nada
E tudo me corrói!
Compromissos, compromissos... que são compromissos?
Se não me compromete a vida nesse momento?
Se não os cumpro e fico em dívida, hão de ser meus compromissos?
Estou farta das minhas dívidas!
Pessoa, ele mesmo
O profundo desentendimento do mundo misturado à compreensão de si, clareza sobre a escuridão adentro, pobreza da alma e riqueza das angústias, me fez lembrar o Pessoa.
Queria hoje ele em casa, no degrau da varanda ao meu lado, vendo essa chuva e falando da vida. Ele me entenderia.
Me sinto tão fudida quanto alguém criminoso. E o que eu fiz? Não sei. A culpa simplesmente me corrói. Eu só queria um vício sujo, uma vantagem desonesta, uma razão ambiciosa pra justificar. Mas não há.
Só há a prisão absurda nesse corpo e nenhum heterônimo que me liberte junto aos verdes prados. Talvez haja um,que me habita, pensando que eu sou ele, aquele alguém calado que grita. Talvez também me entenderia o Affonso Romano Sant'anna, esse ao menos é vivo, apesar de também longe demais de minha varanda.
Queria hoje ele em casa, no degrau da varanda ao meu lado, vendo essa chuva e falando da vida. Ele me entenderia.
Me sinto tão fudida quanto alguém criminoso. E o que eu fiz? Não sei. A culpa simplesmente me corrói. Eu só queria um vício sujo, uma vantagem desonesta, uma razão ambiciosa pra justificar. Mas não há.
Só há a prisão absurda nesse corpo e nenhum heterônimo que me liberte junto aos verdes prados. Talvez haja um,que me habita, pensando que eu sou ele, aquele alguém calado que grita. Talvez também me entenderia o Affonso Romano Sant'anna, esse ao menos é vivo, apesar de também longe demais de minha varanda.
por
Angélica Juns
Fora da vida, com fé e vontade
Tenho tido tanta fé na racionalidade que posso tê-la mistificado e feito do pensamento uma busca por vida, e não uma forma de vida.
Pensar na realidade se tornou a forma mais eficiente de perder o controle sobre ela.
Fico em dúvida se estou demasiado interiorizada ou completamente fora de mim.
Já não sei se sofro tanto ou se sinto demais, se valorizo no tamanho que há ou no tamanho que vejo.
Não sei se há algo que eu coma, toque ou respire que possa me ajudar. Não sei se tento ou se me conformo, se há melhora ou apenas acomodação.
Ao meu redor vejo âncoras e agulhas, nada útil a agarrar. Como elas foram parar aqui?
Talvez falte mesmo uma reza. Afinal, já que o pensamento está fanático por sua própria lógica, parece faltar-lhe um ritual que dê contenção.
Hoje acendo uma vela. Ao redor coloco oferendas. Entrego aos pesadelos, perseguições, culpas, frustrações e anseios, dizendo a eles que me curvo, me rendo. Peço a eles a benevolência de me permitirem amar, ter esperança, ser.
Esse pai que me observa precisa ser temido, talvez assim me pareça mais normal ser feliz.
Pensar na realidade se tornou a forma mais eficiente de perder o controle sobre ela.
Fico em dúvida se estou demasiado interiorizada ou completamente fora de mim.
Já não sei se sofro tanto ou se sinto demais, se valorizo no tamanho que há ou no tamanho que vejo.
Não sei se há algo que eu coma, toque ou respire que possa me ajudar. Não sei se tento ou se me conformo, se há melhora ou apenas acomodação.
Ao meu redor vejo âncoras e agulhas, nada útil a agarrar. Como elas foram parar aqui?
Talvez falte mesmo uma reza. Afinal, já que o pensamento está fanático por sua própria lógica, parece faltar-lhe um ritual que dê contenção.
Hoje acendo uma vela. Ao redor coloco oferendas. Entrego aos pesadelos, perseguições, culpas, frustrações e anseios, dizendo a eles que me curvo, me rendo. Peço a eles a benevolência de me permitirem amar, ter esperança, ser.
Esse pai que me observa precisa ser temido, talvez assim me pareça mais normal ser feliz.
por
Angélica Juns
Trens que vem e vão da estação
Todo santo dia vejo os trens
que circulam pelos teus poemas
há tanto tempo. Quem diria.
Não tem mindim,
nem o moço vendendo amendoim.
Não tem a margem que passa,
não tem vista, só carcaça.
Tem muito moço do ganha pão da ferrovia,
que limpa a mão no pano azul de todo dia
e respinga seu suor no chão
que um dia receberá os grãos,
amendoins caídos por descuido.
Não sei porque me prendo
justo hoje que é frio,
quando devia estar aquele sol
das tarde de sonho absurdo
no parque pra gente deitar
pra ouvir os sabiás.
Talvez seja por Saudade
da liberdade
não só de poder não crer,
mas também de poder.
Acho que você sabia viver...Sabia.
que circulam pelos teus poemas
há tanto tempo. Quem diria.
Não tem mindim,
nem o moço vendendo amendoim.
Não tem a margem que passa,
não tem vista, só carcaça.
Tem muito moço do ganha pão da ferrovia,
que limpa a mão no pano azul de todo dia
e respinga seu suor no chão
que um dia receberá os grãos,
amendoins caídos por descuido.
Não sei porque me prendo
justo hoje que é frio,
quando devia estar aquele sol
das tarde de sonho absurdo
no parque pra gente deitar
pra ouvir os sabiás.
Talvez seja por Saudade
da liberdade
não só de poder não crer,
mas também de poder.
Acho que você sabia viver...Sabia.
por
Angélica Juns
Necessário, somente o necessário... Já dizia a Disney
A mesma impressão que tinha aos 6 anos de idade, de que o outro é um personagem facilmente identificável, e não importa o que ele faz ou pensa, desde que colabore ou me consiga um sorvete.
"Cala a boca, mulher! Mede a merda da barra da calça e me deixa sair logo desse muquifo."
"Pouco importa que você fazia esse colete horroroso quando tinha mais tempo, ou que a outra cliente está te enrolado, ou que não gosta da moda da calça fusô."
Ai, porque ainda estou prestando atenção no que ela diz? Só preciso respirar (esse ar fétido), esperar ela terminar de marcar as roupas e sair. Em uma semana eu volto, pago e pego minhas roupas.
Mais alguns minutos... "Ai, aqui cheira merda." – Repudiar mentalmente é fácil, faço o tempo todo. Mas no ato, só sorrisos, agradecimentos, “estou tranquila, aguardo sim”... Por quê? Boa pergunta.
Aos 6 anos, os personagens eram bem menos complicados. Eram a somatória das ações que realizaram ou algo que me chamou a atenção quando fizeram ao meu redor. A maioria das vezes podia ser dito ou feito algo que eu nem tinha ciência.
Se tava dando banho na barbie, meu universo era a barbie e seu banheiro.
O tio, por exemplo, era um monstro porque batia no filho, gritava, me culpava de algo que só um adulto pode ter culpa (afinal,criança não tem culpa se lhe dão responsabilidades de um adulto... Mas esse também era o tio que tinha um colo bom, fazia brincadeiras, era engraçado. Simples assim, sem questionamentos. Sem contradição entre ser um monstro e um bom colo.
Mas, obviamente a gente cresce e tende a ficar mais e mais crítico, identificar e julgar melhor, ter relações mais complexas, sentindo menos, raciocinando mais.
A costureira, pobre mulher, absolutamente mal vestida, no entanto crendo ser uma ótima crítica da moda, com sua televisão bradando sermão evangélico, em meio ao caos de seu brechó mal organizado e fedendo a fezes. Diz que estourou um cano do andar de cima. Uma pena, o cano era de esgoto. Ela falava, falava, e eu, preocupada comigo, assim como quando tinha 6 anos.
O tio, só por curiosidade: não vale uma paçoca mesmo. Na época eu não percebia, mas tinha dados já pra concluir o que hoje, sabendo muito mais e compreendendo melhor, sei: inseguro e covarde o suficiente pra bater e gritar com criança, é a forma que lhe permite identificar-se como homem e capaz. Enfim, alguém de quem não sentirei saudade ou falta de convivência.
É estranho quando a gente assume que tem gente que você prefere nunca mais ver na vida. Não que tipo “não faz diferença”, mas que faça diferença, pra melhor, se a pessoa sumir da sua frente. Vem quase junto com assumir que você sente ódio, tem pena, se sente impotente e que dá preguiça se relacionar com algumas pessoas.
É muito bom acreditar que os relacionamentos tem que ser cultivados, boas pessoas tem educação e educação é se dedicar ao outro. Acaba quando o outro te faz sofrer e ser infeliz. Ou melhor, acaba quando você percebe que sem o outro é mais feliz, sofre menos.
Não estou falando de um outro como qualquer outro. Não. Adoro muitas pessoas. Gosto da maioria com quem me relaciono. É da minoria que busco distância. Mas, ainda assim, há de se admitir que quando se aprende que temos o direito de definir nosso espaço nas relações, acabamos dando um pouco mais de distância para quase todas elas. Percebemos melhor a que distância estamos de cada um, tendo também o poder de sentir de quem devemos nos aproximar mais.
Da costureira e do tio, o máximo de distância possível! Quem teve a infância Disney, como eu, aprendeu com o menino lobo uma importante lição: “O necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”.
"Cala a boca, mulher! Mede a merda da barra da calça e me deixa sair logo desse muquifo."
"Pouco importa que você fazia esse colete horroroso quando tinha mais tempo, ou que a outra cliente está te enrolado, ou que não gosta da moda da calça fusô."
Ai, porque ainda estou prestando atenção no que ela diz? Só preciso respirar (esse ar fétido), esperar ela terminar de marcar as roupas e sair. Em uma semana eu volto, pago e pego minhas roupas.
Mais alguns minutos... "Ai, aqui cheira merda." – Repudiar mentalmente é fácil, faço o tempo todo. Mas no ato, só sorrisos, agradecimentos, “estou tranquila, aguardo sim”... Por quê? Boa pergunta.
Aos 6 anos, os personagens eram bem menos complicados. Eram a somatória das ações que realizaram ou algo que me chamou a atenção quando fizeram ao meu redor. A maioria das vezes podia ser dito ou feito algo que eu nem tinha ciência.
Se tava dando banho na barbie, meu universo era a barbie e seu banheiro.
O tio, por exemplo, era um monstro porque batia no filho, gritava, me culpava de algo que só um adulto pode ter culpa (afinal,criança não tem culpa se lhe dão responsabilidades de um adulto... Mas esse também era o tio que tinha um colo bom, fazia brincadeiras, era engraçado. Simples assim, sem questionamentos. Sem contradição entre ser um monstro e um bom colo.
Mas, obviamente a gente cresce e tende a ficar mais e mais crítico, identificar e julgar melhor, ter relações mais complexas, sentindo menos, raciocinando mais.
A costureira, pobre mulher, absolutamente mal vestida, no entanto crendo ser uma ótima crítica da moda, com sua televisão bradando sermão evangélico, em meio ao caos de seu brechó mal organizado e fedendo a fezes. Diz que estourou um cano do andar de cima. Uma pena, o cano era de esgoto. Ela falava, falava, e eu, preocupada comigo, assim como quando tinha 6 anos.
O tio, só por curiosidade: não vale uma paçoca mesmo. Na época eu não percebia, mas tinha dados já pra concluir o que hoje, sabendo muito mais e compreendendo melhor, sei: inseguro e covarde o suficiente pra bater e gritar com criança, é a forma que lhe permite identificar-se como homem e capaz. Enfim, alguém de quem não sentirei saudade ou falta de convivência.
É estranho quando a gente assume que tem gente que você prefere nunca mais ver na vida. Não que tipo “não faz diferença”, mas que faça diferença, pra melhor, se a pessoa sumir da sua frente. Vem quase junto com assumir que você sente ódio, tem pena, se sente impotente e que dá preguiça se relacionar com algumas pessoas.
É muito bom acreditar que os relacionamentos tem que ser cultivados, boas pessoas tem educação e educação é se dedicar ao outro. Acaba quando o outro te faz sofrer e ser infeliz. Ou melhor, acaba quando você percebe que sem o outro é mais feliz, sofre menos.
Não estou falando de um outro como qualquer outro. Não. Adoro muitas pessoas. Gosto da maioria com quem me relaciono. É da minoria que busco distância. Mas, ainda assim, há de se admitir que quando se aprende que temos o direito de definir nosso espaço nas relações, acabamos dando um pouco mais de distância para quase todas elas. Percebemos melhor a que distância estamos de cada um, tendo também o poder de sentir de quem devemos nos aproximar mais.
Da costureira e do tio, o máximo de distância possível! Quem teve a infância Disney, como eu, aprendeu com o menino lobo uma importante lição: “O necessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”.
por
Angélica Juns
Se se morre de amor
Todo dia tenho o peito repleto
O corpo indiscreto
e a alma sofrente.
Tenho a morte mais bela que se pode: a vida, simplesmente.
O corpo indiscreto
e a alma sofrente.
Tenho a morte mais bela que se pode: a vida, simplesmente.
por
Angélica Juns
Trabalho frustrado
Eu tinha um sonho
com as imagens da vida que hoje levo
Fiz faculdade
com a premissa de ser quem hoje sou
Consegui o emprego
e sofro de ausência do que hoje possuo
Trabalho duro
sem entender como alcançar meu sonho
com as imagens da vida que hoje levo
Fiz faculdade
com a premissa de ser quem hoje sou
Consegui o emprego
e sofro de ausência do que hoje possuo
Trabalho duro
sem entender como alcançar meu sonho
por
Angélica Juns
Ao dono da minha felicidade
Hoje raia uma percepção nova, imensa e saborosa,
Acabaram os dias de pedra e água fria.
Seus perfumes me impregnam de desejo
Roupas, passos, toques, imensamente contaminados.
Estou envolta por ti, absolutamente embriagada
A sua essência percorre meu corpo e me faz...amar.
Tê-lo por perto é doce, aconchegante, seguro
É fazer planos de felicidade.
Acabaram os dias de pedra e água fria.
Seus perfumes me impregnam de desejo
Roupas, passos, toques, imensamente contaminados.
Estou envolta por ti, absolutamente embriagada
A sua essência percorre meu corpo e me faz...amar.
Tê-lo por perto é doce, aconchegante, seguro
É fazer planos de felicidade.
por
Angélica Juns
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